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O universo labiríntico e distorcido do pop kafkiano de Arca

Uma jornada detalhada pela discografia incomparável da artista venezuelana, que já trabalhou com Björk, Kanye West, Frank Ocean, FKA Twigs e Rosalía

Igor Brunaldi Publicado em 26/06/2020, às 12h00 - Atualizado às 15h53

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Arca no clipe de "Nonbinary" (Foto:Reprodução)
Arca no clipe de "Nonbinary" (Foto:Reprodução)

Atenção! O texto abaixo começa com um conto complementar, que serve como uma ferramenta para tentar gerar no leitor certos sentimentos que serão abordados em seguida. A leitura do conto não é essencial para a compreensão do resto do texto, então sinta-se à vontade  de pular para a próxima seção.

Um conto para começar

Você acorda e, por algum motivo inexplicável, levanta da cama antes mesmo de abrir os olhos. Você percebe que inverteu a ordem, e sente uma confusão sutil no fundo do seu ser, mas não dá muita atenção para isso.

Então já que está de pé, decide andar até a cozinha, na esperança de conseguir fazer um pouco de café com o resto de pó que ainda resta na dispensa.

Quando você toca na maçaneta, te vem a sensação de estar sendo observado, mas "Isso é impossível", você pensa, e ignora o desconforto. Centésimos antes do cérebro enviar para a sua mão o comando de contrair os músculos e abrir a porta para sair do quarto, uma epifania toma conta da sua cabeça e você começa a entender por que levantou antes de abrir os olhos. 

Sem qualquer explicação, você sabe que isso aconteceu porque alguém sem querer entrou na sua casa, sem saber que era a sua casa, e passou uma xícara de café sem nem ter o menor intuito de tomar o dito café. Você não sabe como, mas sabe que sabe disso sem sequer sair do quarto.

Agora com dor de cabeça, você decide que é melhor voltar para a cama e dormir mais um pouco.

Apesar de que, bem lá no fundo do seu ser, no mesmo fundo em que sentiu aquela confusão do primeiro parágrafo, você torce para que o ato de deitar de novo na cama sirva mesmo para encerrar essa realidade onírica, afinal, "Eu só posso estar sonhando".

Zonzo, você deita na cama sem nem lembrar de ter andado de volta até ela. Você percebe que está de olhos fechados, e também não se lembra em que momento os fechou. 

Nada disso importa, pois agora cresce em você a ansiedade de não saber se você vai acordar ou dormir. 

Imagens vívidas começam a piscar com uma velocidade enjoativa. Lugares onde já esteve. Lugares que nem lembrava já ter visitado. Rosto familiares pintados com tinta acrílica mudam de corpos e se encaixam em pescoços aleatórios sem as devidas cabeças hierarquicamente posicionadas. 

Então tudo para, e você dá um gole da xícara de café que está a sua frente na mesa da cozinha. O café desce quente e você aprecia esse calor, afinal, é um dia frio de verão. 

Quando você pensa em dar o segundo gole, centésimos antes do cérebro enviar para a sua mão o comando de se elevar e posicionar de novo a porcelana quente nos seus lábios, outra mão te impede.

Fora do seu campo de visão, alguém sussurra: "Esse café é meu".

Você percebe que está de olhos abertos, e não se lembra do momento em que os abriu.


Agora sim, vamos ao texto...

Enquanto eu elaborava uma introdução para esse texto, que tem como objetivo principal caminhar pela discografia da Arca e mostrar em detalhes a trajetória sonora dela até chegar em KiCk i, disco que lançou nesta sexta, 26, me peguei refletindo sobre como me sinto quando ouço as músicas dela. 

E foi assim que esse conto que você acabou de ler se materializou na minha mente e, ao mesmo tempo, numa página em branco do Google Docs.

Apesar de ser obviamente muito mais longo do que os parágrafos iniciais que eu buscava para um texto jornalístico, acredito que essa divagação criativa represente muito bem meus sentimentos em relação às composições da artista venezuelana.

Existe nas músicas dela uma sensação pulsante de perigo constante, causada pela imprevisibilidade sonora, que por sua vez é resultado da atividade frenética e criativa de uma mente brilhante.

Para apreciar ao máximo o trabalho de Arca é preciso aceitar e se deixar afogar pelo caráter caótico vigente, pelo desconforto de transições repentinas e esquizofrênicas, e por uma falsa sensação de segurança surpreendentemente gratificante.

Arca faz com a música o que Franz Kafka fez com a literatura: a subversão suprema das expectativas. Ela faz você achar que sabe o que está acontecendo. E assim que você começa a se sentir confortável com a estrutura da música, ela estilhaça esse conforto e transforma o som desses milhares de cacos em um novo elemento para o beat.

Então com exemplos de faixas de cada um dos discos dela, vamos ouvir e entender  como essa jornada chegou no álbum KiCk i, o mais acessível de toda a discografia, e principalmente como chegamos no single "Nonbinary", canção de abertura do novo trabalho que incorpora com excelência toda a trajetória e aperfeiçoamento dela como artista.


Stretch I e Stretch II (2014)

Stretch 1 é o primeiro de todos os lançamentos da compositora, produtora, DJ, cantora e engenheira de som.

Logo de cara ela apresenta todas as cartas com as quais trabalha até hoje: tempos quebrados, transições repentinas, loops intermitentes e vocais esparsos, porém cativantes, apesar de serem tão distorcidos que nem sempre podem ser compreendidos.

Apesar de tantas peculiaridades criativas e de produção, que podem muito bem assustar quem busca música eltrônica padrão para dançar, Stretch 1 é o ponto de partida mais honesto que um artista poderia ter.

Nele, Arca não se priva de ser excêntrica e não esconde em momento algum seu objetivo como DJ: surpreender. 

Stretch 2, por ter sido lançado no mesmo ano, encontra a artista em um espaço criativo bem similar, porém não idêntico ao projeto anterior.

Vocais aparecem com mais frequência, porém a distorção completa das vozes, totalmente descompromissada com a compreensão da letra, se mantém.

Nessas novas nove faixas, Arca já mostra todo o espírito aventureiro que ainda mantém em 2020. Elementos clássicos usadas na produção de música eletrônica aparecem quase que irreconhecíveis, recortados e replicados em sequências sonoras que transitam entre o dançante macabro e o reflexivo assustador. 


Xen (2015)

No ano seguinte ao lançamento dos dois EPs mencionados acima, Arca entegou ao mundo esse que se tornaria não apenas um marco da carreira dela, mas também um ponto revolucionário da história do eletrônico experimental.

Nesse primeiro álbum completo da discografia dela, os vocais recuam e entregam completamente o protagonismo para incontáveis camadas de sintetizadores pulsantes e intermitentes que, por sua vez, entregam ao ouvinte uma experiência sonora posicionada no limite do dançante e do meditativo.

"Now You Know", primeira faixa do disco (que pode ser ouvida abaixo), expressa com maestria o que Xen viria a representar para a carreira da artista.

O álbum é todo permeado por sinfonias sintéticas de teclas e cordas que soam como representações ritmadas de um universo interior catártico, pronto para dançar ao fim da próxima reflexão existencial sobre si mesmo.

Se Stretch 1 e 2 tinham nuances de extroversão, Xen chega como um mergulho épico de introspecção sombria e fantástica, no qual cada segundo de cada música é utilizado de forma calculista.

Milésimos ou até raramente segundos de silêncio funcionam como ferramenta sonora. O vazio, quando presente, é usado como mais um instrumento essencial para a paisagem total. 


Mutant (2015)

No mesmo ano em que lançou Xen, Arca presenteou os fãs com essa coletânia de mais 20 faixas e pouco mais de uma hora de duração.

E como o nome do disco sugere, apesar de ter mostrado até aqui uma capacidade desigual de transitar entre diferentes atmosferas, tempos e frequências, a artista prova que é possível ir ainda mais longe, e concretiza, mais uma vez, um novo parâmetro para a experimentação sonora.

Texturas e beats em loop completamente desmembrados e repropositados entram e saem de cena enquanto teclas cósmicas tentam prender a atenção do ouvinte.

A todo tempo algum novo elemento surge no horizonte, tornando essa uma batalha intensa de tentar manter o foco em um único som, como quem busca um apoio seguro e estável dentro de um ônibus velho lotado correndo a 100km/h em uma estrada de terra esburacada.

De todos os discos mencionados até agora, esse é talvez o mais difícil de ser digerido, e o que mais exige uma disposição mental para ser transportado a um dimensão na qual não existem formas concretas e pré-determinadas.

Nessa dimensão, quem reina é o abstrato que existe apenas no fundo do subconsciente do ser mais desapegado das fronteiras da forma.

Apesar de não soar de todo prazeroso, Mutant é extremamente recompensador para quem estiver disposto a se deixar levar.


Arca (2017)

Depois de dois anos do disco anterior, quando parecia que estava criando para si um certo padrão, ou parecia pelo menos ter descoberto o caminho pelo qual seguir, Arca decide novamente desregular os medidores de tudo aquilo que havíamos criado até então como pré-concepções do que ela era capaz.

Os vocais, ausentes nos dois álbuns anteriores, retornam como nunca haviam sido ouvidos: puros, totalmente em espanhol e majoritariamente sem qualque distorção (com exceções sutis e esporádicas, mas em momento algum comparáveis ao que eram antes).

E para compensar a ausência desses efeitos no canto, a voz de Arca volta com uma carga dramática esmagadora, grandiosa e carregada até o limite de melancolia, seja quando busca tons mais agudos, ou quando segue para um canto grave e sussurrado.

Carregando nos ombros o impacto do nome da própria mente que o concebeu, o disco é uma ópera regida pelo instrumental sintético e angelical que Arca aperfeiçoou ao longo dos anos em atividade.

Aliás, sobre a escolha do título para o álbum, ela contou, em uma entrevista à i-D Magazine, que ficou um ano em busca do nome perfeito, porém "todos soavam estrangeiros. Mas como eu uso [no trabalho] minha voz cantada de uma forma que nunca havia usado antes, não senti que seria artifical chamar de Arca."


KiCk i (2020)

E finalmente chegamos em 2020. Três anos após o lançamento do trabalho anterior (o intervalo mais longo de toda a discografia dela), Arca chega não apenas com as energias renovadas, mas com toda uma energia sonora e atitude inéditas.

Todo o misticismo poético e obscuro dos álbuns anteriores, que criava uma névoa entre artista e ouvinte, abre espaço para uma agrassividade confiante atingível apenas por quem tem certeza do que está fazendo, pois tem certeza de ter explorado todos os cantos mais inimagináveis da música eletrônica.

KiCk i é de longe o disco mais acessível de Arca, e ainda assim, isso não quer dizer que é para qualquer um. Sem perder a potência da produção experimental e da criatividade na hora de criar camadas atípicas de ondas sonoras, ela se aproxima do pop como nunca havia feito.

Um elemento que torna isso óbvio é participação inédita de artistas convidadas. "KLK", faixa que testa os limites do reggaeton, conta com vocais da estrela Rosalía. Em "Afterwards", Bjök canta em espanhol. "Watch" traz a participação da cantora e DJ britânica Shygirl, e a escocesa SOPHIE marca presença em "La Chíqui".

São quatro convidadas, cada uma com trajetórias e carreiras bem distintas, trabalhando sob o pano de fundo orquestrado por Arca.

As contorções e distorções sonoras ainda estão aqui. A inquietação de não saber o rumo que a música pode tomar a qualquer segundo ainda está aqui. A presença de sons estilhaçados e da estética de colagem sonora esquizofrênica também está presente. O falso senso de segurança de entender o que está acontecendo, também está. Vocais sentimentais? Com certeza. Vozes afogadas em efeitos? Pode apostar que sim.

Com esse lançamento, Arca pegou todos os elementos extremos e pontiagudos com os quais experimentou nas composições anteriores e os uniu da forma mais harmoniosa possível, com a dicotomia da precisão e da força necessárias a quem esculpe rugas na pele de um ser feito de mármore.

KiCk i é o maior exemplo atual de que tornar um som mais acessível para um público maior não é sinônimo da perda de identidade, de qualidade ou do caráter experimental, e por isso, se encaixa perfeitamente em uma discografia impecável e absolutamente revolucionária.


Parcerias com Björk, Kanye West e outros artistas

De todas as parcerias mencionadas a seguir nessa seção, foi com Björk a mais frutífera. A cantora e compositora islandesa participa da faixa "Afterwards", do disco KiCk i, na qual canta em espanhol, mas a colaboração das duas vai muito além.

Em 2015, Arca foi peça essencial na produção do disco Vulnicura, e assina a produção de sete das nove músicas.

Dois anos depois, em 2017, voltou a ser convidada por Björk para colaborar. Dessa vez, no disco Utopia, mais recente da discografia da islandesa lendária.

Em 2013, ela participou da produção de quatro faixas do disco Yeezus, do rapper Kanye West. E o toque especial da criatividade dela é notável nos detalhes das músicas "I'm In It", "Hold My Liquor", "Blood On The Leaves" e "Send It Up".

Apesar de ser uma colaboração em uma música, com a duração e a sonoridade de uma vinheta, ela marcou presença também no misterioso projeto Endless, do aclamado Frank Ocean. A venezuelana produziu a faixa instrumental e extremamente experimental "Mine", de apenas 32 segundos.

FKA Twigs é uma artista britânica absolutamente subestimada. Além de uma voz angelical e letras poéticas e intimistas, a cantora apresenta uma identidade visual e sonora excepcionais. No intitulado EP2, lançado em 2013, Arca produziu e escreveu todas as quatro canções junto com Twigs


+++ A PLAYLIST DO SCALENE