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Luiz Melodia 1951-2017

Contrariando as probabilidades, o artista desceu o morro para botar jazz e soul no samba

Mauro Ferreira Publicado em 04/11/2017, às 14h02 - Atualizado às 14h37

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<b>Coragem Musical</b><br>
Melodia via além das limitações de gêneros musicais, em uma época em que isso não era tão comum - Daryan Dornelles
<b>Coragem Musical</b><br> Melodia via além das limitações de gêneros musicais, em uma época em que isso não era tão comum - Daryan Dornelles

Em show feito em 1987 na cidade natal do Rio de Janeiro, Luiz Melodia precisou entrar carregado no palco do Teatro Carlos Gomes. Ele não estava bêbado, tampouco fora de órbita por causa de algum aditivo químico. O que imobilizava o artista era o medo de encarar a plateia que já estava agitada e ansiosa por sua presença. Foi preciso que o produtor e músico Líber Gadelha, integrante da banda de Melodia, juntasse braços e forças com outro músico para carregar o cantor para o palco. “A apresentação foi um delírio e ele fez mais um show belíssimo, mas no início só conseguiu entrar carregado! Até se encontrar com o público dele, Luiz sempre foi tímido”, ressalta Gadelha, produtor de quase todos os álbuns gravados pelo artista a partir dos anos 1990, inclusive do Acústico ao Vivo (1999), que rendeu o único Disco de Ouro da carreira de Melodia pelas mais de 100 mil cópias vendidas.

Luiz Carlos dos Santos talvez tenha sido tímido por insegurança, por resquício do preconceito sofrido quando desceu, no início da década de 1970, o Morro de São Carlos, onde nascera em 5 de janeiro de 1951. Luiz, que herdou o sobrenome artístico do pai, Oswaldo Melodia, desafiou a racista lógica musical da época, que acreditava que cantor negro vindo do morro tinha de ser enquadrado como sambista.

Melodia fez e cantou samba. Mas incorporou blues, rock e soul ao ritmo, em uma fusão singular que deslumbrou os ouvintes antenados do primeiro álbum, Pérola Negra, lançado em 1973, ano em que a MPB também foi sacudida com os primeiros trabalhos de Fagner, João Bosco, Raul Seixas (1945–1989), Sérgio Sampaio (1947–1994) e Secos & Molhados. Por Sampaio, cantor e compositor capixaba que despontara em 1972 com a marcha “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”, Melodia logo se afeiçoou. Talvez porque ambos foram rotulados como “malditos” por se recusarem a seguir as regras do jogo da indústria da música.

Melodia sempre regravou canções de Sampaio. No que se tornou o último álbum de estúdio do artista, Zerima, lançado em 2014 com produção de Gadelha e Humberto Araújo, a escolhida foi “Leros, Leros e Boleros”, composição lançada por Sampaio em 1973, o ano em que Melodia despontou. Nessa música, o intérprete de voz aveludada cantou o verso “Vou me fazer de eterno no meu encontro com Deus”.

Melodia cumpriu o prometido aos 66 anos. Na madrugada de 4 de agosto, ele se fez eterno. Não resistiu às complicações decorrentes de um câncer na medula óssea, diagnosticado dias após sangramento no nariz nos bastidores do derradeiro show, feito na cidade paulista de Jaú em julho de 2016. Chegava ao fim a vida singular do Negro Gato, cantor cheio de fôlego rítmico que ganhara esse epíteto por ter se apropriado, desde 1980, do rock de Getúlio Côrtes que Roberto Carlos lançara em 1966. Cantor herdeiro do soul, Melodia tornou esse rock ainda mais black ao recriá-lo no quarto álbum, Nós (1980).

A o saber da passagem de Melodia, os colegas se encarregaram de eternizá-lo no panteão dos imortais da música brasileira. “Além de grande cantor e compositor, era uma pessoa muito especial. Tive a honra de ser a primeira cantora a dar voz a uma de suas composições”, vangloria-se Gal Costa, em alusão ao fato de ter lançado “Pérola Negra”, que apresentou ao Brasil em outubro de 1971 no show Fa-Tal – Gal a Todo Vapor.

Na noite de 4 de agosto, Gal voltou a cantar “Pérola Negra”, incluída de última hora no roteiro de Trinca de Ases, show que a reúne com Gilberto Gil e Nando Reis. Em turnê pelo Brasil, a apresentação estreou no dia da morte de Melodia, em São Paulo. No Rio de Janeiro, Maria Bethânia também incluiu no roteiro do show que apresentava o samba “Estácio, Holly Estácio”, composto por Melodia e lançado por ela no álbum Drama (1972). “A estrela africana agora brilha no céu”, poetiza Bethânia.

Tanto Bethânia como Gal tiveram a honra de lançar as duas músicas mais famosas de Melodia porque as composições lhes foram apresentadas pelo poeta tropicalista Waly Salomão (1943–2003). A história de Melodia talvez tivesse sido outra se Waly não tivesse subido o Morro de São Carlos ao lado de outros integrantes da geleia geral brasileira, como o também poeta Torquarto Neto (1944–1972) e o artista plástico Hélio Oiticica (1937–1980). Quando voltaram de lá, alardearam a descoberta do artista.

Apesar das conexões fundamentais de Bethânia e Gal com a obra de Melodia nessa fase inicial, foi Zezé Motta a cantora que ficou mais próxima do cantor ao longo da vida. “Ele era meu amigo, meu irmão, meu ídolo. Eu era apaixonada pelo Melodia com o consentimento da Jane”, brinca Zezé, em referência a Jane Reis, viúva de Melodia. Zezé e Jane choraram juntas no velório do cantor, realizado na quadra da escola de samba Estácio de Sá. Mas também se lembraram, saudosas, das idiossincrasias bem-humoradas do artista. “Eu me divertia muito com ele. Melodia era engraçado. Ele tinha um lado bem introvertido, mas, de repente, soltava as pérolas dele e fazia umas brincadeiras”, conta Zezé, que ganhou de Melodia em 1978 a canção “Dores de Amores”.

Bem-humorada, a atriz e cantora relembra que, no meio de uma crise conjugal com Jane, Melodia a procurou para desabafar. Depois de passar a noite cogitando a separação da mulher, o artista de repente mudou de ideia e desanuviou o semblante. “Ele me disse: ‘Zezé, você acha que eu vou ter o trabalho de me separar da Jane para depois ter outro trabalho de pedir para voltar?’ E começou a rir. Ele era genial, tinha essas sacadas”, relata Zezé. O poeta ficou com Jane até a morte, que não foi por amor no bairro do Estácio, como Melodia imaginara, trágico e romântico, nos versos do samba “Estácio, Holly Estácio”, em homenagem ao berço carioca de pioneiros bambas como Bide (1902–1975), Marçal (1902–1947) e Ismael Silva (1905–1978).

No Estácio, Luiz Melodia viveu e cresceu entre rodas de samba e choro frequentadas pelo pai, Oswaldo. Só que o filho bamba se recusou a seguir somente os sons do samba. Na era pré-fama dos anos 1960, chegou a integrar um conjunto, Os Instantâneos, para animar bailes com o pop-rock da época. As fusões de Melodia renderam, entre 1973 e 2014, 15 registros fonográficos oficiais. Essa discografia será acrescida do registro póstumo do show Zerima, captado em 2016 em duas apresentações no Teatro da Urca, na cidade mineira de Poços de Caldas (MG).

Pedra inicial e fundamental dessa obra, repleta de joias como “Magrelinha”, Pérola Negra resiste ao tempo, carioca da gema como seu criador, que também amou as canções do Roberto Carlos e da turma comandada pelo então “Rei da Juventude” nas tardes dominicais dos anos 1960 (a propósito, Melodia não teve tempo de concretizar a gravação de um show batizado Música e Romance, de roteiro calcado no cancioneiro da Jovem Guarda).

Contudo, é injusto restringir a genialidade de Melodia ao álbum de 1973. Dois anos após a edição de Pérola Negra, o compositor defendeu a música “Ébano” no Festival Abertura, promovido pela Rede Globo em 1975, ano em que a cantora Vanusa lançou “Congênito”, outra joia desse ourives de suingue próprio. No ano seguinte, 1976, saiu o segundo álbum de Melodia, Maravilhas Contemporâneas, cujo repertório continha “Juventude Transviada”. Esse samba torto, de mensagem desvairada, virou hit ao parar na trilha Sonora da novela Pecado Capital, exibida pela Globo. Era o tema da principal personagem feminina da trama, Lucinha (Betty Faria), mulher tão suburbana quanto Melodia. Essa malemolência carioca garantiu ao cantor a admiração de mestres como Zeca Pagodinho. “Melodia não tinha maldade com nada. O negócio dele era cantar samba e as coisas que ele amava”, depõe o sambista.

As coisas que o artista amou transcenderam rótulos e gerações, a ponto de possibilitar conexões com a rapper curitibana Karol Conka. “A melodia dele inspirou e encantou juntamente com a voz cheia de personalidade. Tenho orgulho de ter um registro com uma das pessoas mais importantes da música brasileira”, celebra Karol, em referência ao dueto na música “Até Amanhecer”, composta por ela e gravada com Melodia em novembro de 2012 para o projeto Meet the Legends.

Tendo trabalhado por muito tempo com o artista, Líber Gadelha o admirou profundamente. “Melodia foi o maior cantor brasileiro, um grande compositor, muito amigo, generoso. Foi a humildade em pessoa. Quando dançava, era uma coisa linda. Ele adorava as crianças e os amigos dele”, testemunha o produtor.

Luiz Melodia saiu de cena, mas a obra do bamba do Estácio está viva, entranhada no coração do Brasil.

Em Forma de Oração

Sete canções que resumem a importância de Luiz Melodia para a música brasileira

“Pérola Negra” (1971)

Uma atormentada canção de amor que deu o tom da obra de Melodia, primeiramente conhecida na voz de Gal Costa e, dois anos depois, no canto aveludado do autor.

“Estácio, Holly Estácio” (1972)

Amor e ódio se misturam no samba em que Melodia acalma os sentidos ao falar do Estácio, bairro onde viveu no Morro de São Carlos.

“Estácio, Eu e Você” (1973)

Esse clássico abriu o álbum Pérola Negra, mostrando o que Melodia aprendera com o pai nas rodas de samba e choro.

“Ébano” (1975)

Música em que defendeu o orgulho negro com suingue black no festival Abertura, promovido pela Rede Globo em 1975.

“Juventude Transviada” (1976)

A poética alucinada da letra não impediu que o Brasil cantasse uma das melodias mais inspiradas de Luiz. Foi tema da novela Pecado Capital.

“Negro Gato” (1980)

O rock é de 1966 e foi lançado por Roberto Carlos na era da Jovem Guarda. Mas Melodia se apropriou como ninguém da canção do compositor Getúlio Côrtes ao regravá-la em 1980.

“Codinome Beija-Flor” (1991)

A balada lançada na voz de Cazuza em 1985 se renovou no canto de Melodia, em gravação feita em 1991 para a trilha da novela O Dono do Mundo. Prova da grandeza dele como intérprete.